Qual a surpresa do crime? O que surpreende na maldade humana? O que apavora na maledicência? Qual o horror que nos assola diante da indiferença à dor alheia, à morte alheia, à ruína alheia…?
Afinal, quando chegará o dia em que acordaremos para uma realidade que grita aos nossos sentidos dizendo que somos seres perversos e pervertidos?
Porque negamos ao outro o amor? Porque negamos ao outro a palavra de carinho? Porque negamos ao outro a tolerância? Porque negamos ao outro a divisão do prazer, da alegria, do conforto? Porque negamos ao outro um pedaço do nosso bem estar, da nossa paz? Porque negamos ao outro o bem que abunda e sobra em nós e do qual somente ocupamos uma pequena parte?
Somos egoístas, mentirosos, falsos, maledicentes, homicidas, ladrões… todos nós.
O mundo que criamos com individualismo nos envolve em seu ambiente infecto e contamina a todos na mais tenra idade.
Aprendemos a ser essa merda que somos desde criança.
Aprendemos a viver nesse hospício onde nada sentimos ao ver um menino sujo e desnutrido, de mãos estendidas, pedindo uma moeda para comprar comida.
Odiamos e nos orgulhamos de odiar o outro. Sentimos nojo e nos orgulhamos de sentir nojo do outro que nada tem e nada pode.
E eu insisto na pergunta: - o que surpreende na maldade humana?
Onde estão nossas lágrimas ao olharmos aquele corpo dormente, encolhido, deitado no chão próximo à porta da nossa garagem, semi-coberto com cartões, de pés nus, em uma madrugada de julho? O que fazemos então? Qual o nosso sentimento? O que nós, confortavelmente a bordo de um automóvel climatizado, com roupas grossas, macias e quentes, fazemos por aquele ser?
Nada! Isso mesmo: nada! Ele não merece pois é um vagabundo, um bêbado sujo e fedido, e deve ficar exatamente como está: na miséria, e se morrer tanto melhor, desde que não seja perto de mim; melhor para ele e principalmente para mim, que não serei mais obrigado a contemplar o patético que é sua figura horrenda, desgraçada e por isso desagradável aos meus olhos.
Mas pior ainda são aqueles que hipocritamente penalizam-se e justificam sua omissão com desculpas absurdas que nada justificam senão o próprio descaso com a ruína do outro.
É assim que somos, amigo leitor. Esse é o nosso retrato. Aliás, um dos nossos retratos, pois ficaria aqui infinitamente pintando imagens semelhantes à essa. E muitos são aqueles que ainda teimam em negar esses fatos. Sim, fatos.
Eu, após escrever esse texto, não irei mudar, assim como tu, caro leitor, após lê-lo, provavelmente também não irá mudar, e continuaremos sentindo mais repulsa e ódio de mendigos dormindo ao relento em noites gélidas que afeto e solidariedade ao seu estado de miserabilidade.
Talvez existam almas nobres entre nós. Um pouco mais nobres. Não muito. Mas o suficiente para preocupar-se com o outro, com o desvalido, com o desafortunado. Mas são poucas. Muito poucas.
São exceções.
A regra é asquerosa, imunda.
E como nos sentimos bem nela!
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